Sabotado por quem te ama
Quando quem mais nos ama é justamente quem mais nos sabota
Muito já se falou sobre a autossabotagem e sobre a sabotagem daqueles que querem nos prejudicar. Nossos familiares, amigos, ou seja, pessoas que nos amam e que só querem nosso bem, também podem ser (sem querer ou perceber) sabotadores de nossos planos.
Algumas situações onde a sabotagem aparece:
Familia :
Meus pais querem que eu estude, e torcem para que eu tenha sucesso profissional, mas colocam obstáculos se digo que pretendo fazer uma especialização fora do país ou em outro Estado. Por que eles agem assim? Como devo proceder?
Psicóloga: Alguns pais sofrem da “síndrome do ninho vazio”, onde demonstram enorme dificuldade em levarem suas próprias vidas independente da vida dos filhos. Por um lado podemos entender, por mais que não concordemos, estes pais passaram anos e anos de suas vidas voltados para os filhos, trabalharam pelos filhos, se preocuparam em dar o melhor. Mas o que estes pais não perceberam é que deixaram que o tema “filhos” fosse a única motivação em suas vidas, e quem é que quer viver sem a única fonte de prazer? Claro que este processo é inconsciente, os pais não percebem que estão usando seus filhos para serem felizes, e acabam argumentando de forma que até parece lógica, eles dizem “eu me preocupo com a segurança do meu filho, eu sei que se ele estiver longe de mim correrá perigos por estar numa cidade onde não conhece ninguém”. Sabemos que há muito exagero nisso.
Como proceder: Colocar, com muito carinho, para estes pais que será melhor para todos se você conseguir ser um grande profissional e voltar para casa, agora como visita, trazendo orgulho para esta família. Não tenha medo de forçar um pouquinho a barra e bater pé firme naquilo que você já sabe que será o melhor para você. Normalmente este mal estar dos pais passa em pouco tempo.
Independência:
Meus pais vivem dizendo que preciso ser mais independente, mas sempre estão tentando resolver meus problemas, sem eu pedir, e se digo que quero sair de casa e morar sozinha, tentam me convencer de que não é uma boa idéia. Por que eles fazem isso? Como devo agir?
Psicóloga: Tem pais que falam que o filho deve ser independente, falam o que acham bonito falar, mas na hora de provar o que realmente pensam mostram que no fundo acham que o filho não tem condições de ser independente, acham que o filho não saberá se cuidar, não vai cuidar bem das próprias contas, nem vai comer direito. Mas quem é que ouviu falar de filho que morreu de inanição por estar longe da mãe?
Como agir: Tenha em mente que não é só você que está se tornando independente, seus pais também estão se tornando independente de você. Mostre que eles continuarão sendo úteis em sua vida, que você não deixará de ser filho deles só porque está morando sozinho. Peça para eles te ajudarem no processo de saída de casa, por exemplo, peça para irem junto verem os possíveis imoveis, peça conselhos (mesmo que você não siga todos os conselhos, isso não é o mais importante).
Amigas:
Minhas amigas vivem falando que devo namorar, mas quando encontro alguém, sempre dão um jeito de apontar defeitos e tentam me empurrar pra outra pessoa. Por que elas agem assim? O que devo fazer?
Psicóloga: Tem amiga que se sente “proprietária” das colegas. As amigas que fazem isso são aquelas que já provaram o gostinho do “poder” e não querem abrir mão. Sinto muito, mas se isso acontece com você é porque você deixou. Mas não se desespere, é possível reverter essa situação sem perder as amigas.
O que fazer: Não ceda às amigas, mostre à elas que você gosta muito delas mas o papel que elas tem em sua vida é outro, o de compartilhar e não de obedecer. Mostre que você não garante que nunca irá “quebrar a cara”, mas isso faz parte do processo de crescimento de todo mundo, e você topa aprender com a vida, e não pretende seguir os passos desenhados por elas.
Marido :
Meu marido me incentiva em meu emprego e torce pela minha carreira, mas sempre que preciso levar trabalho pra casa em finais de semana ou feriado, tenta me desconcentrar e arranja programas ou convida amigos para almoçar ou jantar em casa. Por que ele faz isso? Como devo agir?
Psicóloga: Marido, com o tempo, vai se tornando uma certa mistura de pai, amigo e amante. Um pouco ele se sente seu dono e acredita que sabe o que seria melhor para você, quer que você cresça, mas tem ciúmes de que você possa considerar o trabalho mais importante que ele. Claro que dificilmente ele considerará que você mereça ter ciúmes quando for ele que estiver levando trabalho pra casa, pois em nossa cultura, infelizmente, o homem ainda é considerado o “provedor” e, portanto ele tem o “direito” de colocar o trabalho em primeiro lugar.
O marido moderno é aquele que adora ter duas rendas na família, mas odeia que a mulher ocupe seu tempo trabalhando. Solução: Ganhar na loteria.
Marido também é o cara que gosta de dar a solução pronta, por exemplo, se você levar trabalho pra casa ele vai achar que você está estressada e convidará amigos para que você relaxe. Bacana, não? Não, ele precisa saber que não é legal fazer isso.
Como agir: A velha e boa conversa sempre é a solução. Claro que muitos homens odeiam a tal de DR – discutir a relação, ok, não precisa chegar à isso. Mas mostre a ele as conseqüências de cada ato, mostre que você terá que pedir licença aos convidados para terminar seu trabalho, pois infelizmente ele os convidou em dia impróprio. Perca o filme ou teatro caso ele tenha comprado ingressos justamente no dia no qual você tinha que trabalhar, o prejuízo será um ótimo argumento para que da próxima vez ele te consulte antes.
Faça tudo isso serenamente, não aja com ironia, faça destas atitudes a oportunidade de mostrar que você tem compromissos sérios com seu trabalho. Faça com carinho e mostre que você também tem muita consideração pelas responsabilidades que ele tem no trabalho.
Academia:
Meus irmãos sempre me incentivam a fazer atividades físicas, mas quando resolvo fazer academia, sempre me convidam para algum programa bem no horário das aulas, e tentam me convencer de que faltar alguns dias não tem problema, e eu acabo perdendo aulas e saindo do rítimo. Por que eles agem assim? Como deve proceder sem magoá-los?
Psicóloga: Deus “inventou” os irmãos para nos fazer mais fortes. São eles que nos dão as primeiras surras – literalmente falando. Quem é que nunca saiu no tapa com irmão? O interessante é que mesmo que chegue à agressão física (quando crianças) a mágoa nunca dura muito, no dia seguinte lá estão os dois juntos novamente – para o desespero da mãe, mas é assim mesmo, isso é saudável. De certa forma os irmãos fazem as propostas que são convenientes a eles, como no exemplo de faltar a academia, e cabe à você treinar o maravilhoso “não”. Talvez os convites para faltar à academia sejam até propositais, pois sabemos da preguiça que bate quando não estamos bem comprometidos com nossa saúde, sendo assim fica mais fácil faltar a academia do que a outro compromisso. Sem falar na falsa impressão de que “não há problema em faltar só um dia” – há o grande problema de generalizar para muitos outros dias e quando perceber não foi um único dia.
Como agir: Treine na frente do espelho a palavra “não”. Diga com todas as entonações possíveis: “Nãaaaaao! NÃO! Nãooooooo! Assim quando você tiver que falar diante dos irmãos sairá bem natural, sem aquele sentimento de culpa característico.
Para de fumar :
Estou tentando parar de fumar, e minha amiga (que fuma, às vezes) acha ótimo e me dá a maior força. Mas, de vez em quando, ela acende um cigarro na minha frente e me oferece, dizendo que uma tragadinha não tem problema. Aí acabo não resistindo e fumo um pouco, mas, depois, me sinto culpada e fraca. Por que ela faz isso? Como deve agir?
Psicóloga: Ela faz isso porque ela é fraca e provavelmente não quer ficar neste barco sozinha. Ou ela é fraca e tem medo de te magoar por não te oferecer o cigarro. Ou ela é fraca e nem lembra que você quer parar de fumar. Enfim, ela é fraca.
Como proceder: Faça um belo ensaio com todo arsenal de argumentos contra o fumo, por exemplo “Não vou fumar porque isso acaba com meus pulmões. Não vou fumar porque estarei jogando dinheiro fora, mesmo que seja o seu dinheiro. Não fumarei porque um dia sem cigarro em meu corpo já inicia o processo de desintoxicação e não quero perder isso. Não vou fumar porque deixa meus cabelo com um cheiro horrível”. Etc, etc, etc.
Parar de beber:
Gosto muito de cerveja, e costumava beber (além da conta) com meus amigos nos fins de semana. Mas estou tentando parar de beber, pois engordei bastante e me sinto muito inchada. Expliquei aos meus amigos e eles pareceram entender e concordar com minha decisão. Mas, toda vez que saímos juntos, em barzinhos ou nos reunimos em casa, nossos encontros são sempre regados à cerveja. Se digo que não vou beber, tentam me convencer de que uma ou duas cervejinhas não fazem mal. Por que eles agem assim? O que devo fazer?
Psicóloga: Eles fazem assim porque nossa cultura ensina que devemos sempre oferecer algo às pessoas, e de preferência algo que elas gostam e, está claro que você gosta de cerveja, só que não quer mais beber.
Como proceder: Planeje com antecedência como você se comportará diante destas ofertas. Vale dar apenas um sorriso e balançar a cabeça, ou simplesmente sair de perto sem responder, vale colocar uma bala na boca, vale lembrar a pessoa que não está mais bebendo, ou usar este mesmo momento para pedir à pessoa que não lhe ofereça mais cerveja alguma.
Cartão de crédito:
Minha irmã vive dizendo que eu gasto muito e que preciso controlar melhor meu cartão de crédito, pois sou uma compradora compulsiva. Mas sempre que tento me controlar e frear meus impulsos, ela me chama para passear no shopping ou acompanhá-la numa compra, e se ela vê algo que tem o meu estilo, diz “esse você tem que comprar, pois é a sua cara”. Por que ela faz isso? Como devo agir?
Psicóloga: Se você é compulsiva parece que sua irmã também. Os compulsivos são pessoas ansiosas que usam algum comportamento para o alivio desta ansiedade. E claro que não há nada mais gostoso do que a sensação (falsa) que as compras nos dão de que agora ficaremos lindas, completas e felizes.
Como proceder: Chame sua irmã para uma conversa séria. Cortem os cartões de credito como num ritual de “desapego”. Faça-a ver que ela também está se destruindo com tantas compras inúteis.
Dieta:
Minha família vive dizendo que eu preciso perder alguns quilos, mas quando começo um regime tentam me convencer de que uma bolachinha aqui ou um pedaço de bolo ali não fazem mal. Por que eles agem assim? Como devo agir, sem magoar ninguém?
Psicóloga: Eles agem assim porque quem está fazendo o regime é você e não eles. Se sua família for tradicional é possível que ainda tenham o conceito de que ser gorda é ser saudável. Tive uma amiga que odiava ser chamada de “bonitona” pois essa palavra era, na realidade, uma referencia à avó de um dos amigos que disse a seguinte frase “você está bonitona, está gorda”. A família é tão importante no processo de perda de peso que na psicoterapia voltada para obesidade há todo um treinamento para que se consiga driblar esta família sabotadora.
Como proceder - Este é o item de maior dificuldade, portanto a sugestão é: Leia todas as dicas acima e aplique todas.
Caso você ainda sinta dificuldade em se colocar e as pessoas continuam te sabotando, conte com o psicologo para se fortalecer.
Entrevista cedida pela psicologa Marisa de Abreu à Vanessa Olivier - Revista BIANCHINI
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